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Escola, renda e direitos: o caminho real para tirar a juventude do alcance do crime

Por Hugo Silva

Presidente da UBES

Um país que chora seus jovens todos os dias não pode continuar fingindo que “guerra” é política pública. O Brasil ainda enterra, em média, 60 jovens por dia vítimas de homicídio, e quase metade dos assassinatos atinge pessoas com até 29 anos. Isso não é destino, é projeto político que não prioriza a vida da juventude, educação, permanência escolar e direitos como eixo central da segurança pública, com esporte, cultura, saúde e saneamento.

Há evidência de que manter adolescentes na escola salva vidas. Estudo do Ipea mostra que cada 1 ponto percentual a mais de jovens (15–17 anos) matriculados resulta em queda de 2% na taxa de homicídios municipais. Educação é a política de prevenção que mais golpeia o recrutamento do crime organizado, porque reduz a as diferenças, da perspectiva de vida, dá pertencimento e renda no longo prazo. 

Transferências de renda condicionadas reforçam esse efeito. Análises do Ipea associam maior investimento do Bolsa Família a menores taxas de homicídio, sinalizando que renda + escola diminui a violência letal. É o óbvio que por décadas foi negligenciado: ninguém escolhe o crime se a vida oferecer alternativas concretas hoje e perspectivas reais para o amanhã. O Pé-de-Meia é mais um passo civilizatório justamente porque gera renda a partir da permanência e conclusão do ensino médio. 

“Megaoperações” que deixam uma trilha de corpos só multiplicam o luto e reciclam o poder do crime. No dia 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro viveu mais uma operação descrita pela imprensa e por organismos internacionais como massacre, com dezenas de mortos e escolas fechadas. O roteiro é conhecido: a repressão alveja os territórios, a cadeia de comando do crime se reorganiza, e a vida de quem mora ali volta ao ponto de partida, só que com mais sofrimento e menos perspectiva. O Estado não pode “reprimir, deixar corpos no chão, abrir espaço e ir embora”. Se o Estado entra, tem de ficar com serviço, direitos e oportunidade.

O que queremos?

1) Educação integral com permanência garantida

  • Meta pública: 100% dos estudantes do EM cadastrados e recebendo o Pé-de-Meia onde houver elegibilidade, com busca ativa para quem está fora.
  • Escola de tempo ampliado com estudo assistido, reforço e itinerários formativos conectados a emprego e tecnologia.
  • Ambiente seguro: protocolos de prevenção da violência e do bullying baseados em evidências e abordagem “toda a escola”, como recomenda a UNESCO/UNICEF/OMS.

2) Cultura viva e esporte como infraestrutura da paz

  • Programas contínuos de cultura e esporte no contraturno e no pico horário do crime (tarde/noite).
  • Requalificação de espaços escolares e comunitários: quadras, salas multiuso, bibliotecas e laboratórios: metade das escolas brasileiras ainda não tem estrutura adequada para esporte.

3) Saúde e cuidado que seguram a juventude

  • Equipe de saúde escolar articulada à UBS de referência, com atenção à saúde mental, prevenção de ISTs, redução de danos e apoio psicossocial a famílias.
  • Rotas seguras casa-escola, com iluminação pública, transporte estudantil e articulação com guarda municipal.

4) Saneamento e direito à cidade

  • Saneamento básico e urbanismo de proximidade reduzem riscos, doenças e aumentam a ocupação positiva do território. A Nova Agenda Urbana é taxativa: segurança urbana se constrói com direitos, serviços e participação comunitária, não com cerco permanente. 

5) Governança que substitui o “entrar e sair” por ocupar e cuidar

  • Pactos locais: escola, assistência social, saúde, cultura, esporte, juventude, conselhos tutelares e Ministério Público com metas mensais de frequência escolar, inserção em atividades e proteção social.
  • Dados abertos por bairro: evasão, adesão ao Pé-de-Meia, vagas em esporte/cultura, indicadores de violência. Sem diagnóstico, não há virada.
  • Protocolo pós-operação: qualquer ação policial precisa ser seguida de ocupação de serviços em 72 horas, com mutirões de documentação, matrícula, saúde e frentes de trabalho jovem. Repressão sem Estado social é terreno fértil para a volta do crime.

Tem recurso. Falta prioridade. O Brasil reduziu homicídios em 11 anos e sabe onde estão as vítimas? Jovens, negros, periferia. Cada real investido em permanência escolar, renda e equipamentos públicos poupa bilhões em luto, prisões e insegurança. Segurança pública eficaz começa na ponta do lápis, não na ponta do fuzil.