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DEZ MIL VOZES NA AVENIDA KENNEDY: A PASSEATA QUE TRANSFORMOU O ABC EM TERRITÓRIO SECUNDARISTA

De Conceição do Araguaia a Nova Lima, de Seropédica ao Ceará, estudantes de todo o Brasil tomaram as ruas de São Bernardo do Campo para gritar que escola não é quartel e que educação não se negocia


Por Patrícia Blumberg
Fotos: Bernardo Guerreiro, Kati Tortorelli e Filipe Peçanha

Tinha cheiro de tinta fresca nos cartazes. Tinha grito de ordem rasgando o ar do ABC. “Acabou a paz, mexeu com estudante, mexeu com satanás!” Tinha gente que viajou 49 horas de ônibus para estar ali. E tinha, acima de tudo, a certeza coletiva de que aquele asfalto já conhece o som de quem luta.

Mais de 10 mil estudantes secundaristas ocuparam a Avenida Robert Kennedy nesta sexta-feira (17), no coração de São Bernardo do Campo, na maior passeata do 46º Congresso da UBES. A marcha, conduzida pelo presidente Hugo Silva e pela vice-presidenta Morena Torres, reuniu delegações de todos os estados brasileiros em uma onda de bandeiras, faixas, tambores e vozes que tomou conta do centro da cidade sob o tema “Em defesa do Brasil e da democracia: por uma escola livre da extrema direita!”.

A Avenida Kennedy não é uma avenida qualquer. Ela corta o mesmo território onde, no final dos anos 1970, metalúrgicos pararam fábricas e enfrentaram a ditadura. É o chão que viu nascer o novo sindicalismo, que forjou lideranças que reescreveram a história do país. Nesta sexta, foram os secundaristas que ocuparam esse chão. Vieram de ônibus, de van, de carona, de avião. Alguns vieram a pé. Todos vieram com a mesma vontade.

49 horas de estrada, 150 delegados, uma só voz

A delegação do Pará saiu de Conceição do Araguaia e viajou 49 horas para chegar a São Bernardo do Campo. Eram 150 pessoas. Gabriel Ricardo e Ruan Pablo, lideranças da delegação, não escondiam o cansaço do corpo nem a energia do espírito. Já tinham vindo a congressos anteriores e sabiam o que encontrar. Mas, desta vez, as pautas pesavam mais. “Lutamos por maior orçamento para a educação e viemos cobrar posicionamento dos políticos”, disseram. Cortes na educação, taxas absurdas e a luta contra a escala 6×1 eram as bandeiras que a delegação paraense carregava pela avenida.

49 horas de viagem. Dois dias e uma noite dentro de um ônibus. Para muitos brasileiros, isso seria motivo suficiente para desistir. Para os secundaristas do Pará, era apenas o preço de estar onde a história acontece.

“Não existe revolução sem união”

Giovana Lima Frans tem 17 anos e veio de Minas Gerais. Viajou 21 horas com uma delegação de 5 pessoas, representando mais de 100 estudantes organizados na sua base. Não era a primeira vez de Giovana no CONUBES, e ela sabia exatamente por que estava ali. “A militarização das escolas públicas está sendo muito fortalecida pela extrema direita. É isso que viemos combater.”

Quando perguntada sobre o que pretendia levar de volta para Minas, Giovana não hesitou. “O discurso de que não existe revolução sem união. Unir nos espaços pequenos e fora deles, lutando por essas pautas. É isso que vou levar.”

A primeira vez

Gabriel Mariano também tem 17 anos. É presidente da UBES Nova Lima, em Minas Gerais, e trouxe 10 delegados para o congresso. Era a primeira vez de todos no CONUBES. Gabriel falou sobre a realidade das escolas militarizadas, que ele conhece de perto. Escolas com liberdade limitada, que não oferecem o que prometem. “A solução não é militar. É investir em educação”, disse. E completou, com os olhos brilhando no meio daquela multidão: “Todos os estudantes esperam sair daqui com estrutura boa, confiantes. Todos os meninos e meninas podem sair daqui com o coração queimando para lutar pelas principais pautas.”

O coração queimando. Gabriel não poderia ter escolhido imagem melhor.

“Preconceito na escola. Transfobia. Diretores intransigentes.”

Maria Alice tem 19 anos e veio do Rio de Janeiro, de Seropédica, com 17 companheiros de delegação após 7 horas de estrada. Sua pauta não cabia em cartaz. Maria Alice falou sobre preconceito na escola, sobre transfobia, sobre diretores que se recusam a respeitar identidades, sobre a violência cotidiana que estudantes LGBTQIA+ enfrentam todos os dias entre uma aula e outra. Em um congresso de 10 mil pessoas, Maria Alice lembrou que a luta pela escola democrática também é a luta pelo direito de existir dentro dela.

Três dias de viagem, uma vida de luta

Netta Honorato tem 32 anos, é do Ceará e viajou três dias para chegar a São Bernardo do Campo. Trouxe 68 pessoas só da sua organização. Pedagoga, primeira travesti formada pela Universidade Federal do Ceará, pós-graduanda em Educação, coordenadora de cursinho popular. Netta carrega no corpo e na trajetória tudo o que o movimento estudantil defende.

Sua fala foi a mais contundente da passeata. “A pauta mais decadente de todos os ataques é tirar do estudante a capacidade de estudar. A EJA está sumindo. Atacar a Educação de Jovens e Adultos é atacar quem já foi excluído uma vez e está tentando voltar.” Netta coordena um cursinho popular para que jovens recebam o Pé-de-Meia. Sabe, na prática, o que significa cada real cortado da educação. “A educação é a que mais sofre.”

Netta Honorato não cabe em uma nota de rodapé. Netta é o movimento estudantil em sua versão mais radical: a de quem transforma a própria exclusão em ferramenta de inclusão para os outros.

O asfalto como sala de aula

A passeata do 46º CONUBES não foi apenas uma manifestação. Foi uma aula aberta. Uma aula sobre o que acontece quando 10 mil jovens de origens diferentes, com sotaques diferentes, com dores diferentes, decidem caminhar na mesma direção.

Tinha faixa do Pará ao lado de bandeira de Minas. Tinha grito de ordem gaúcho se misturando com batuque cearense. Tinha estudante de escola técnica marchando ao lado de estudante de cursinho popular. Tinha gente de 15 anos e gente de 32. Tinha quem estava ali pela primeira vez e quem já perdeu a conta.

E tinha, no centro de tudo, a Avenida Kennedy segurando mais uma vez o peso de quem caminha por um país diferente. No mesmo chão que tremeu com as greves operárias, tremeu de novo. Dessa vez, sob os pés de quem ainda nem votou, mas já sabe exatamente o que quer mudar.

O 46º Congresso da UBES segue neste sábado (18) com a plenária deliberativa, onde serão votadas as resoluções construídas ao longo dos debates. No domingo (19), os delegados elegem a nova presidência e diretoria da entidade. O tema do encontro é “Democracia e soberania: um Brasil do tamanho da nossa rebeldia.” 

Nesta sexta, na Avenida Kennedy, esse tamanho ficou visível.