Ubes – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas

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“Mochila nas costas e pé na escola” convoca Hugo Silva, que se prepara para conduzir um 46º Congresso UBES gigante e eleger nova direção

Presidente apostou na base, levou pautas às ruas e encerra mandato defendendo uma entidade mais presente nas salas de aula e na disputa política do país

Por Helena Prestes

Não foi no gabinete que Hugo Silva tentou conduzir a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) nos últimos dois anos. Tampouco em reuniões fechadas ou em articulações distantes da rotina de quem encara, todos os dias, o calor das salas cheias, o transporte precário e a falta de estrutura nas escolas públicas. A imagem que ele escolhe para definir sua gestão é outra, a de um jovem que prefere circular pelos corredores e salas das escolas a ocupar cadeiras institucionais.

“A liderança que esse momento precisa é aquela que coloca a mochila nas costas e vai de sala em sala de aula”, diz. A frase, ou palavra de ordem, sintetiza o que ele buscou transferir à entidade: presença, escuta e mobilização.

Foi com esse espírito, mais próximo do chão da escola do que dos corredores do Congresso Nacional, que Hugo chega, no próximo dia 19 de abril, quando será realizada a plenária final do 46º Congresso da UBES, ao fim de sua passagem pela presidência da maior e mais representativa entidade dos estudantes secundaristas da América Latina.

A sua gestão marcou uma mudança de postura do movimento secundarista: além de ser reativa para defender direitos, assumir um papel mais propositivo, sem abandonar o tom crítico que historicamente caracteriza a UBES. A entidade, nesse tempo, buscou não apenas responder às reformas educacionais, mas disputar seus rumos.

Quando assumiu, o debate educacional ainda estava fortemente ancorado na rejeição ao Novo Ensino Médio – uma pauta que mobilizou estudantes em todo o país e conquistou a derrocada do projeto. Sem abandonar a crítica ao projeto, a UBES sob a sua liderança ampliou o campo de atuação e passou a mirar problemas persistentes e cotidianos da escola pública: permanência estudantil, infraestrutura, acesso e qualidade do ensino.

Luta contra as “saunas de aula”

A luta se materializou em campanhas que partiam dos desafios mais próximos do dia a dia dos estudantes. A mais simbólica delas, segundo Hugo, foi a que a UBES encapou com o irreverente nome de “Saunas de Aula”, expressão que sintetiza a realidade de milhares de escolas brasileiras em uma climatização adequada. A mobilização ocupou ruas, pressionou gestores e atravessou o debate público até alcançar espaços como o noticiário do Jornal Nacional. De acordo com o líder estudantil, os protestos resultaram na conquista da refrigeração decente de diversas escolas por todo o país.

Outras agendas foram resgatadas durante o biênio. O passe livre estudantil, por exemplo, nunca saiu do vocabulário das mobilizações, ao mesmo tempo, a permanência na escola ganhou centralidade com a defesa de políticas instituídas pelo Ministério da Educação, como o Pé-de-Meia, entendidas como medidas concretas para enfrentar a evasão escolar.

No plano institucional, Hugo liderou a UBES nas discussões da Política Nacional do Ensino Médio (PNEM) e marcou presença nas disputas em torno do novo Plano Nacional de Educação (PNE). Ali, ajudou a sustentar a meta de investimento de 10% do PIB para a área, em um cenário em que havia pressão por redução para 7%.

Grêmios fortes, UBES gigante!

Segundo ele, para além das campanhas e disputas institucionais, o eixo mais importante da gestão esteve na base. A reorganização dos grêmios estudantis e o fortalecimento das entidades estaduais apareceram como prioridade com o passar do tempo. O Encontro Nacional de Grêmios, que reuniu mais de dois mil estudantes no Rio de Janeiro, funcionou como espelho desse esforço e como tentativa de rearticular uma rede que, em muitos lugares, principalmente após a pandemia da Covid-19, vinha enfraquecida.

O caminho, porém, não foi linear. A gestão esbarrou em resistências dentro das próprias redes de ensino, com relatos frequentes de dificuldade de acesso às escolas e de tentativas de esvaziamento político dos grêmios. Em alguns casos, a presença de entidades estudantis passou a ser vista com desconfiança ou simplesmente barrada. O cenário, segundo Hugo, revela uma disputa mais profunda sobre o papel da escola pública e sobre o lugar da organização estudantil dentro dela, desafio a ser recebido pelo próximo presidente ou presidenta. 

Hugo se despede do cargo com a certeza de que a base “saiu das críticas e entrou na disputa”. Mas deixa ainda a projeção de um cenário ainda mais tensionado para os próximos anos. Em ano eleitoral, a leitura é que a disputa política tende a ser mais presente e deve adentrar as escolas – não se limitando aos ambientes institucionais. Para o presidente da UBES, a escola deixa de ser apenas espaço de formação e se torna território de disputa. Leia abaixo a entrevista completa.

Qual o balanço dos últimos dois anos de UBES?

Bom, o balanço que eu faço dessa última gestão, desse último período, é que foi um período muito importante para a gente reapresentar e rediscutir muitas pautas importantes para a escola pública brasileira, assim como apresentar novas coisas que a gente precisa na escola pública e na sala de aula. A gente faz essa transição de pauta, passa a falar menos sobre o Novo Ensino Médio e mais sobre pautas que ainda persistiam na sala de aula e que eram muito importantes.

Qual você acha que foi a principal marca da UBES neste último período?

Então eu acho que coisas muito importantes e relevantes foram, por exemplo, a nossa campanha pela climatização das salas de aula – as ‘saunas de aula’ – que foi um sucesso. A gente teve atos em todo o Brasil, conseguiu climatizar várias escolas e a nossa pauta saiu no Jornal Nacional. Além disso, a gente passa a valorizar e discutir muito a importância de se universalizar o Pé-de-Meia, que é muito importante para a permanência dos estudantes na escola.

E na sua opinião qual foi o maior desafio enfrentado pela entidade neste biênio?

Eu avalio que esse é um grande desafio e, infelizmente, ainda permanecerá por um bom tempo, que é o desafio de organizar e reorganizar o movimento secundarista na sua base, nos grêmios estudantis. Existe um movimento de impedir que os estudantes se organizem e sejam independentemente organizados. Tem secretaria que impede a entrada das entidades estudantis nas escolas é um processo de despolitização desses espaços, que deveriam ser espaços de luta.

A UBES sai mais forte destes 2 anos de gestão?

Eu acho que a UBES não só conseguiu manter a sua capacidade de mobilização, mas também ampliar, porque o foco também foi nas pautas estaduais. Então a gente teve uma participação muito presente em quase todos os estados do Brasil. Ao passo que se mantém essa mobilização permanente, a gente também conseguiu ampliar, e isso se reflete, por exemplo, no nosso Encontro Nacional de Grêmios, que foi um dos maiores da história da UBES.

Qual pauta você considera mais urgente hoje?

Eu acho que o tema mais importante para ser debatido é justamente a questão da democracia, tanto fora da sala de aula quanto dentro. A luta por autonomia em cada sala de aula do Brasil é fundamental. Esse é o principal debate para o próximo período.

O que o Congresso da UBES representa neste momento?

Eu enxergo o Congresso da UBES como um desses marcos que simboliza o fim dessa gestão, mas que também é um marco para todo o movimento secundarista de manter a luta, manter a chama acesa, manter esse caráter de massa, de mobilização da UBES na rua. É o momento de pressionar os estudantes de todo o Brasil para que se mantenham organizados e mobilizados.

Que liderança o movimento precisa agora?

A liderança que esse momento precisa é uma liderança que coloca a mochila nas costas, vai em cada sala de aula do Brasil, denuncia o autoritarismo e luta pela autonomia dos estudantes. Uma liderança de pé no chão, de sala de aula, que construa grêmios e coloque o movimento secundarista para girar a engrenagem das transformações do país.”

E a prioridade da próxima gestão?

A prioridade zero é organizar melhor as salas de aula, com muitos grêmios estudantis organizados. Mas eu acho que a chave número um é a reorganização de todo o movimento secundarista na base. As entidades estaduais precisam estar reconstruídas e jogando peso nesse processo, principalmente na disputa da democracia dentro da sala de aula.