
A captura de Nicolás Maduro por uma operação dos EUA, em janeiro, não é “defesa da democracia”: é escalada de uma política histórica de sanções, bloqueios e intervenção, com impacto direto na soberania latino-americana.
Por Mayra Bortone
A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela não começou hoje, e não se explica por “preocupação com a democracia”. O que está em curso é a continuidade de uma linha histórica de coerção política, econômica e militar sobre um país que concentra as maiores reservas de petróleo do mundo e ocupa posição estratégica para a geopolítica regional.
O que aconteceu agora
Entre 3 e 6 de janeiro de 2026, o cenário se agravou após uma operação dos EUA em Caracas que resultou na captura de Nicolás Maduro e sua esposa para os Estados Unidos, segundo agências internacionais.
Na sequência, o país entrou em uma fase de alta tensão interna, com relatos de estado de emergência e repressão, além de disputa acelerada de poder dentro do governo venezuelano.
Ao mesmo tempo, a própria narrativa pública do governo norte-americano alimentou preocupações de tutela externa: análises registram declarações de Trump sugerindo que os EUA “administrariam” a transição e, em paralelo, o tema do petróleo aparece como eixo econômico da crise, inclusive com repercussões imediatas no mercado e interesse de refinarias e empresas nos EUA.
Nesta ofensiva, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou publicamente que os EUA assumiriam o comando da Venezuela por um período de transição, dizendo que os norte-americanos “irão governar o país até que uma transição segura e sensata possa ocorrer” e que os EUA estão “no comando” do país após a operação militar.
Trump associou esse controle não apenas à “estabilização política”, mas também ao relançamento da produção de petróleo, com planos envolvendo empresas petrolíferas dos EUA para recuperar a infraestrutura e impulsionar a extração, algo que especialistas veem como uma extensão dos interesses econômicos centrais na disputa.
Organizações internacionais e analistas destacam que tais declarações e intenções colocam em xeque a soberania venezuelana: a administração de um país soberano por uma potência estrangeira sob pretexto de transição abre precedentes de ingerência direta, que ultrapassam a narrativa de “defesa da democracia”.
Não é “crise isolada”: é método
A história recente ajuda a entender por que a situação atual não pode ser tratada como episódio pontual. Desde ao menos 2019, há registros de embargo/pressão sobre o petróleo venezuelano e congelamento de ativos, com idas e vindas conforme objetivos políticos de Washington.
E, mesmo antes disso, a escalada de sanções e bloqueios já vinha sendo denunciada internacionalmente como mecanismo de estrangulamento econômico e pressão política.
A UBES sustenta uma posição clara: o destino da Venezuela deve ser decidido pelo povo venezuelano, sem sequestro institucional, ameaça militar ou controle externo sobre riquezas nacionais.
O que está em disputa quando falam “democracia”
Quando parte da mídia enquadra a Venezuela apenas como “ditadura vs. democracia”, apaga o centro material do conflito: soberania sobre recursos estratégicos e a tentativa de recolocar a América Latina na lógica de subordinação, onde governos podem ser punidos quando deixam de servir aos interesses de Washington.
Nesta semana, inclusive, sanções e ações relacionadas ao conflito voltaram ao noticiário internacional e institucional, com repercussões diretas sobre ativos e fluxos econômicos vinculados ao país.
Por que isso importa para a América Latina e para estudantes
O precedente é perigoso: se uma potência estrangeira normaliza a captura de um chefe de Estado e a pressão militar/econômica para “organizar” transições, toda a região entra no radar de chantagem.
Isso significa mais instabilidade política, mais disputa por commodities, mais pressão sobre governos e mais risco de retrocessos sociais, inclusive nos direitos básicos que atravessam a vida estudantil: orçamento público, políticas sociais, soberania tecnológica e capacidade de investimento em educação.
O que estudantes e entidades fizeram (atos de 5 de janeiro)
No Brasil, 5 de janeiro foi marcado por mobilizações de solidariedade e repúdio à escalada dos EUA. Houve convocatórias e atos em capitais, com participação de movimentos sociais e setores organizados.
Também circularam posicionamentos públicos de entidades e organizações repudiando a ação e defendendo o direito internacional e a soberania dos povos.
Defender a Venezuela hoje é defender um princípio simples: a América Latina não é quintal de ninguém. A região tem direito a decidir seu futuro, controlar suas riquezas e construir caminhos com autodeterminação, sem sanções, sem bloqueios e sem intervenção.