
Por Hugo Silva
Presidente da UBES
A crise climática já não é um problema distante, ela se manifesta todos os dias nas cidades, nos bairros e, de forma muito concreta, nas escolas brasileiras. Em um país de dimensões continentais, marcado por desigualdades históricas, o aumento das temperaturas, as enchentes e os períodos de estiagem prolongada afetam diretamente o direito à educação. É nesse contexto que surge a necessidade de discutir um Protocolo de Adaptação Climática para as Escolas, uma pauta que a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) leva à COP 30, como símbolo da urgência de garantir ambientes de aprendizagem seguros, saudáveis e preparados para o futuro.
Em muitas regiões do Brasil, especialmente no Norte e Nordeste, as salas de aula se tornam insuportáveis nos meses de calor. As temperaturas que ultrapassam facilmente os 35 °C transformam o ambiente escolar em uma verdadeira sauna. Sem ventiladores funcionando, sem isolamento térmico adequado e, na maioria das vezes, sem ar-condicionado, o calor prejudica a concentração, o aprendizado e até a saúde de estudantes e professores.
O aumento das ondas de calor, intensificado pelas mudanças climáticas, agrava um problema estrutural antigo: a falta de investimento em infraestrutura escolar. Adaptar as escolas significa pensar em arquitetura bioclimática, ventilação natural, telhados ecológicos e uso de energia solar, soluções sustentáveis que reduzem o consumo e protegem quem mais sofre com o calor: os estudantes.
Milhares de escolas no Brasil ainda não possuem acesso regular à água potável e saneamento básico. Em pleno século XXI, estudantes precisam lidar com torneiras secas, banheiros quebrados e fossas a céu aberto. Com as crises hídricas mais frequentes, o problema tende a piorar.
A adaptação climática precisa incluir políticas de resiliência hídrica nas escolas, com sistemas de captação de água da chuva, tratamento local e reuso para limpeza e irrigação de hortas escolares. Água é condição mínima para dignidade, higiene e aprendizado.
O esporte é parte fundamental da educação, mas, sob o sol escaldante ou debaixo de chuvas torrenciais, as atividades físicas se tornam impossíveis em muitas escolas. A falta de quadras cobertas e áreas protegidas mostra como o planejamento urbano e escolar ainda ignora as novas condições climáticas.
Investir em cobertura, arborização e infraestrutura esportiva é garantir não só lazer e saúde, mas também proteção climática. Uma escola preparada é aquela onde o estudante pode aprender, se movimentar e conviver, independentemente do tempo do lado de fora.
Em períodos de chuvas intensas, muitas escolas brasileiras simplesmente param. As enchentes invadem salas, os telhados cedem, as goteiras alagam corredores, e o calendário escolar é interrompido. São dias sem aula! Além das perdas pedagógicas, há o risco físico, diante de estruturas comprometidas que colocam estudantes e funcionários em perigo.
Esse cenário mostra a necessidade urgente de planos de contingência climática e obras de adaptação, como drenagem, elevação de terrenos, substituição de telhados precários e manutenção preventiva. Cada escola precisa de um diagnóstico local de vulnerabilidade, com participação da comunidade escolar.
Não há adaptação possível sem educação. As escolas não são apenas vítimas das mudanças climáticas, mas também espaços estratégicos para enfrentá-las. É nelas que se formam as novas gerações que compreenderão, discutirão e proporão soluções sustentáveis.
Por isso, a UBES defende que o Protocolo de Adaptação Climática inclua também a inserção da educação ambiental e climática no currículo escolar, com foco na ação local e na cidadania ecológica. Estudantes precisam entender seu papel como agentes transformadores em suas comunidades.
A COP 30, que será realizada em Belém do Pará, coloca o Brasil no centro do debate global sobre o clima. Levar a voz dos estudantes brasileiros a esse encontro é essencial. Adaptar as escolas às novas realidades climáticas não é luxo e nem provilegio, é questão de sobrevivência, dignidade e justiça social.
Cada sala ventilada, cada telhado reparado, cada escola com água potável e quadra coberta representa um passo rumo a um país mais justo, resiliente e preparado para o amanhã.
A adaptação climática começa na sala de aula porque sem educação, não há futuro possível para o planeta.