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NO ABC DAS GREVES, SECUNDARISTAS ENTRAM NA LUTA PELO FIM DA ESCALA 6X1

Três dias depois de Lula enviar ao Congresso o projeto que acaba com a jornada de seis dias, mesa do 46º CONUBES transformou o debate trabalhista em pauta estudantil



Por Patrícia Blumberg
Fotos: Bernardo Guerreiro

Quando o presidente Lula enviou ao Congresso, na noite de 14 de abril, o projeto de lei que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada para 40 horas semanais, ele provavelmente não imaginava que a primeira grande reverberação pública viria de dentro de um congresso de secundaristas. Mas foi exatamente isso que aconteceu nesta sexta-feira (17), na Tenda 2 do 46º CONUBES.

A mesa “Juventude e mundo do trabalho: direitos, desigualdades e o fim da escala 6×1” reuniu estudantes para um debate que cruzou gerações e trincheiras. Na mesma mesa, sentaram a deputada federal Daiana Santos (PCdoB-RS), primeira parlamentar negra e lésbica eleita pelo Rio Grande do Sul e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara; Camila Moraes, secretária-geral da UNE; Moisés Selerges, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o mesmo sindicato que parou fábricas e sacudiu a ditadura nesse mesmo território nos anos 1970; Ludmilla Medeiros Outtes Alves, presidente do Sindicato dos Enfermeiros de Pernambuco; Samira Delgado, Pró-Reitora de Extensão do Instituto Federal do Rio Grande do Norte; Iago Alves, suplente de vereador de Simões Filho, na Bahia; e Cássio Borges.

O tema parecia distante da pauta estudantil até pouco tempo. Já não é. Milhões de secundaristas brasileiros dividem o tempo entre a escola, o trabalho precário e o transporte público. A escala 6×1 é parte do cotidiano de muitos deles, e a mesa do CONUBES tratou de mostrar que a luta trabalhista e a luta pela educação são a mesma luta.

Um projeto de lei com três dias de vida

O timing da mesa não poderia ser melhor. Lula enviou o projeto com urgência constitucional, o que obriga o Legislativo a deliberar em 45 dias. A proposta reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso remunerado sem redução salarial e atinge todas as categorias da CLT, incluindo domésticos, comerciários e aeronautas. No dia seguinte ao envio, 15 de abril, o presidente recebeu centrais sindicais no Planalto após uma marcha de mais de 20 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios, homenageou Rick Azevedo, criador do movimento “Vida Além do Trabalho”, e pediu pressão popular para a aprovação.

A última vez que o Brasil reduziu a jornada de trabalho foi na Constituição de 1988, quando caiu de 48 para 44 horas semanais. Desde então, 38 anos se passaram sem avanço. Esse dado atravessou as falas da mesa inteira.

Daiana Santos e a consciência de classe

Daiana Santos trouxe a fala mais estruturada da manhã. Sanitarista pela UFRGS, educadora social e coordenadora adjunta da Bancada Gaúcha no Congresso Nacional, Daiana é protagonista na pauta do fim da 6×1. Em fevereiro de 2026, recebeu representantes da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB) em seu gabinete para articular a proposta junto ao Legislativo. No CONUBES, a mensagem chegava direto aos secundaristas.

A deputada situou o debate na história. A luta pela redução da jornada remonta à Constituinte de 1988 e a iniciativas como as do senador Paulo Paim, que há décadas defende os direitos dos trabalhadores no Congresso. Para Daiana, onde há consciência crítica, há menos consumismo e mais organização da classe trabalhadora. A construção de uma jornada mais justa exige maturidade coletiva e mobilização social com consciência de classe.

Daiana foi direta ao falar de quem se beneficia com a mudança. A redução da escala impacta principalmente a base da pirâmide: mulheres, pessoas negras e periféricas, que são as que mais contribuem com impostos e menos recebem em retorno. A jornada atual impede a qualificação profissional e o desenvolvimento pessoal. “O que o Brasil precisa é de qualificação profissional, pensamento crítico e um projeto de sociedade que impacte positivamente o futuro”, afirmou. O recado era claro: a classe trabalhadora de amanhã é quem estava sentado naquela tenda.

“Não há desenvolvimento possível baseado na exploração”

O professor Cássio Borges aprofundou uma dimensão que atravessou todas as falas: a escala 6×1 é uma questão de saúde pública. A exaustão física e mental provocada pelo regime atinge com mais força os mais vulneráveis, incluindo mulheres e populações de baixa renda. “Não há desenvolvimento possível baseado na exploração”, disse. Borges também apontou que a pauta ainda é tratada como sindical e carece de uma agenda política mais concreta. Para ele, o sindicato é possível e necessário, e a classe trabalhadora precisa avançar para além dos governantes. “É preciso uma classe trabalhadora organizada, capaz de influenciar o país.” A aprovação do projeto de Lula, na sua avaliação, depende de que todos os mais de 500 deputados sejam pressionados pela sociedade.

A precarização contemporânea ganhou nome na mesa. A uberização foi apontada como a face mais recente de um sistema que trata o trabalhador como peça substituível. Representando os comerciários de Pernambuco, Werlima reforçou que as conquistas históricas do Brasil, da Constituição ao fim da ditadura, vieram da organização estudantil e da luta social. O salário mínimo atual foi chamado de “salário de fome”. A defesa foi clara: não se deve esperar apenas pelo Congresso. É necessário organização social, mobilização e luta por poder.

As mulheres trabalham em dobro

Samira Delgado, que coordena a extensão do Instituto Federal do Rio Grande do Norte e atua na formação de jovens para o mundo do trabalho, trouxe a dimensão de gênero para o centro do debate. As mulheres sofrem ainda mais no regime 6×1, acumulando jornada formal, trabalho doméstico, cuidado com filhos e enfrentamento ao machismo. A luta pelo fim da 6×1, nessa perspectiva, é também uma luta feminista. “As pessoas devem ter condições de brilhar, ser felizes e não adoecer ou morrer de tanto trabalhar”, disse.

A pauta ecoou um dado que Daiana Santos conhece de perto: como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ela acompanha diariamente os impactos da precarização sobre mulheres, jovens negros e a população LGBTQIA+. Idealizadora do Fundo das Mulheres de Porto Alegre, projeto que atende mulheres em vulnerabilidade, Daiana constrói no mandato a mesma ponte que fez na mesa do CONUBES: conectar a pauta do trabalho à pauta dos direitos humanos.

“Os trabalhadores produzem a riqueza, mas não estão no Congresso”

Uma das reflexões mais fortes da mesa veio da constatação de que o Congresso Nacional é majoritariamente composto por empresários, sem uma frente significativa de trabalhadores. Quem produz a riqueza do país não está representado no espaço onde se decide o destino dessa riqueza. A produção de riqueza, defenderam os painelistas, precisa estar vinculada ao direito à inclusão: salário digno, saúde, educação, qualidade de vida. O direito de ser feliz.

Moisés Selerges, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, trouxe para a mesa o peso simbólico do território. É no ABC que o sindicalismo brasileiro escreveu algumas de suas páginas mais importantes. A presença dos metalúrgicos no congresso da UBES reafirma uma aliança histórica entre o movimento estudantil e o movimento sindical que remonta às greves de 1978 e que, naquela sexta-feira, ganhava uma nova geração.

O que fica para os secundaristas

A mesa do CONUBES transformou uma pauta trabalhista em pauta estudantil sem forçar a barra. O secundarista que trabalha em escala 6×1 para ajudar em casa é o mesmo que perde aula, que não consegue estudar para o ENEM, que chega exausto na escola e sai antes da hora. A precarização do trabalho é, antes de tudo, uma barreira à educação.

E é nessa interseção que o 46º CONUBES se posiciona. No mesmo território onde os metalúrgicos pararam as fábricas e mudaram o Brasil, os secundaristas mostram que entendem a lição: sem organização, não há conquista. E que a luta pelo direito ao tempo, ao descanso e à dignidade no trabalho é inseparável da luta pela escola pública, pelo Pé-de-Meia, pelo passe livre, pelo direito de estudar sem precisar escolher entre o caderno e o aplicativo de entrega.

O 46º Congresso da UBES, que tem como tema “Democracia e soberania: um Brasil do tamanho da nossa rebeldia”, segue até domingo (19) em São Bernardo do Campo, com plenária deliberativa no sábado e eleição da nova diretoria no domingo.

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