

Debate na Tenda 1 – E.E. Fernão Dias reuniu lideranças políticas, movimentos e organizações para discutir os impactos das mudanças climáticas e lançou a Caravana Adapta + Escolas
Por Mayra Bortone
A crise climática já não é um problema do futuro. Ela está dentro das escolas, nos bairros, nas periferias e no cotidiano da juventude brasileira. Foi com esse ponto de partida que a Tenda 1 – E.E. Fernão Dias recebeu, nesta sexta-feira (17), a mesa “Eventos extremos, mudanças climáticas e desenvolvimento soberano”, no 46º Congresso da UBES.
Com capacidade para 450 pessoas, o espaço reuniu estudantes de todo o país em um debate que conectou meio ambiente, desigualdade social e projeto de desenvolvimento. No centro da discussão, uma constatação: os impactos da crise climática não atingem todos da mesma forma, e quem mais sofre são as populações vulnerabilizadas.
Clima, desigualdade e disputa de modelo
As falas da mesa apontaram que a crise ambiental está diretamente ligada ao modelo econômico e às formas de produção que estruturam a sociedade. Eventos extremos, como enchentes, ondas de calor e secas, foram tratados não como fenômenos isolados, mas como consequência de uma lógica que prioriza o lucro em detrimento da vida.
Nesse contexto, o debate trouxe a necessidade de pensar adaptação climática como política pública urgente, especialmente no ambiente escolar. Escolas sem infraestrutura adequada, sem ventilação ou preparo para lidar com eventos extremos acabam ampliando desigualdades já existentes.
A discussão também reforçou que falar de clima é falar de soberania. O desenvolvimento sustentável, segundo os participantes, precisa estar articulado a um projeto nacional que considere as realidades locais e o protagonismo da juventude.
“Sem taxar os bilionários, por culpa deles que tá quente”
Deputada estadual por São Paulo, Mônica Seixas trouxe para o debate uma crítica direta às desigualdades econômicas no contexto da crise climática. Ao resgatar sua trajetória no movimento estudantil, destacou a importância da organização da juventude para enfrentar disputas estruturais.
“Não tem luta ecossocialista sem taxar os bilionários, porque é por culpa deles que tá quente pra c******”, afirmou, ao defender a responsabilização das grandes fortunas no enfrentamento da crise ambiental.
A fala dialogou com outras intervenções da mesa, que apontaram a necessidade de enfrentar as raízes econômicas da crise climática, e não apenas seus efeitos.
Juventude, território e organização
A ativista Nathalia Santana reforçou o papel da juventude na defesa dos territórios e na construção de respostas à crise climática. Para ela, o debate ambiental precisa estar conectado com a realidade concreta das populações.
“Com um debate ecossocialista na ponta da língua, a gente defende os nossos territórios, a nossa natureza e o nosso povo”, disse, ao destacar a importância da organização política diante das desigualdades.
Na mesma linha, o vereador Giovani Culau apontou que enfrentar a crise climática exige mudanças estruturais profundas. “Tudo isso só é possível se mudar o sistema, se mudar a lógica de produção e reprodução do capital”, lembrou ele, ao relacionar o debate ambiental com o modelo econômico vigente.
As falas reforçaram um eixo comum da mesa. A crise climática não é apenas ambiental. É social, econômica e política.
Caravana Adapta + Escolas: resposta concreta à crise
A mesa marcou o lançamento da Caravana Adapta + Escolas, iniciativa que vai percorrer diversas capitais brasileiras levando o tema da adaptação climática para dentro das escolas.
Além das propostas debatidas na mesa, a UBES também tem levado o tema para espaços internacionais. A entidade apresentou na Conferência das Partes da ONU (COP) o seu Protocolo de Adaptação Climática nas Escolas, um documento que reúne diretrizes construídas a partir da realidade dos estudantes brasileiros. O protocolo aponta medidas como melhoria da infraestrutura escolar, garantia de ventilação adequada, acesso à água, arborização dos espaços e preparação das escolas para eventos extremos, defendendo que a adaptação climática seja tratada como política pública urgente e com participação ativa da juventude.
Com participação de organizações como GIZ, Instituto Alana, Instituto Talanoa, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e UNICEF, a proposta busca articular informação, mobilização e construção de soluções junto à juventude.
A iniciativa parte de um princípio direto: não existe estudante organizado sem estudante informado. A caravana pretende ampliar o acesso ao debate climático e fortalecer o protagonismo estudantil na construção de respostas.
Vice-presidenta da UBES, Morena Torres também destacou a importância de conectar a pauta climática com o cotidiano das escolas e com a atuação do movimento estudantil, reforçando o papel da entidade nas disputas atuais.
O que está em disputa
A mesa sobre crise climática no 46º CONUBES deixou evidente que o debate ambiental não pode ser separado da realidade social brasileira. A juventude que enfrenta calor extremo em sala de aula, falta de infraestrutura e vulnerabilidade nos territórios já vive os efeitos da crise.
Mais do que diagnóstico, o debate apontou caminhos. Adaptação das escolas, investimento público, responsabilização econômica e organização da juventude aparecem como elementos centrais para enfrentar o problema.
Com o lançamento da Caravana Adapta + Escolas, o congresso transforma o debate em ação concreta, levando a discussão para além do evento e para dentro das escolas de todo o país.
Porque, como ficou claro ao longo da mesa, não existe futuro possível sem enfrentar a crise climática. E essa é uma tarefa que passa, necessariamente, pela juventude.
O 46º Congresso da UBES segue até domingo (19), em São Bernardo do Campo (SP), com plenária deliberativa no sábado e eleição da nova diretoria no domingo. O encontro tem como tema “Democracia e soberania: um Brasil do tamanho da nossa rebeldia.”
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