Mesa reuniu no ABC Paulista duas gerações do movimento estudantil, um líder petroleiro e um professor que virou referência nas redes para discutir o modelo de escola que o Brasil precisa
Por Patrícia Blumberg
Fotos: Bernardo Guerreiro e Tainan Medeiros
No mesmo chão que já tremeu com as greves dos metalúrgicos nos anos 1970, estudantes secundaristas de todo o Brasil se reuniram nesta sexta-feira (17) para debater um dos temas mais urgentes do 46º Congresso da UBES. A mesa “Escola não é quartel: participação e autonomia na educação!” lotou a Tenda 3, em São Bernardo do Campo, e trouxe para o mesmo palco duas gerações do movimento estudantil brasileiro, um líder sindical petroleiro e um professor historiador que se tornou referência para milhares de jovens nas redes sociais.

O debate teve tom firme desde o início. Em disputa estava o modelo de escola que o Brasil quer construir. De um lado, a escola democrática, crítica, com grêmio livre e protagonismo estudantil. Do outro, a militarização e a privatização da gestão escolar, que avançam em pelo menos 17 estados brasileiros com relatos documentados de censura, assédio e desarticulação de grêmios.
Gaiofato abre a mesa com a crítica ao orçamento militar nas escolas
O historiador e professor Gustavo Gaiofato, formado pela USP e criador do projeto “História Cabeluda”, abriu o debate expondo a lógica econômica por trás da militarização. “As escolas cívico-militares detêm mais orçamento, com currículo que não se adequa a um pensamento crítico”, afirmou. Para Gaiofato, que dá aulas desde 2015 e percorre o Brasil palestrando em congressos e escolas, o modelo militarizado está integrado àquilo que a classe dominante projeta como futuro para a juventude: uma classe estudantil cada vez mais disciplinada e menos questionadora.

Gaiofato fez questão de conectar a crítica ao papel da UBES. A entidade, segundo ele, é fundamental para transformar debates como aquele em momentos de inspiração que resultem em organização concreta. “Não é só a classe dominante que pode conduzir os avanços da escola e do Brasil”, disse, arrancando aplausos da tenda.
Petta: “A escola não é neutra”
Gustavo Petta, vereador de Campinas pelo PCdoB e ex-presidente da UNE por dois mandatos consecutivos (2003-2007, único na história a dirigir a entidade por dois períodos), trouxe para a mesa a experiência de quem construiu o movimento estudantil por dentro e agora enfrenta, no legislativo municipal, as tentativas de desmonte da escola pública.

Petta abriu a fala situando o congresso como um espaço de construção coletiva. “Esse é um momento muito especial. Encontramos pessoas e todas elas unidas no objetivo de sonhar e lutar por uma sociedade de outros valores. Sem opressão. Vamos construir um projeto de uma nova sociedade, mais justa, sem preconceitos, em que todos possam viver em sociedade.”
Foi na gestão de Petta à frente da UNE que o Brasil viveu a maior expansão de universidades públicas federais de sua história e o lançamento do ProUni, programa que já levou milhões de jovens de baixa renda ao ensino superior. Esse histórico deu peso à sua análise sobre a militarização.
“A escola não é neutra. Mas a militarização quer tirar da escola o ambiente crítico de valorização da educação como instrumento de busca por mais igualdade”, afirmou. “O que defendemos? Uma escola democrática, crítica, uma escola que Paulo Freire projetou para o nosso país. Valorizamos professores e defendemos o protagonismo dos estudantes na mudança dos rumos do nosso Brasil. Mas eles querem uma escola militarizada, sem pensamento crítico, com terreno fértil para o ódio contra as minorias. Não podemos permitir isso.”
Petta trouxe dados concretos para o debate. O projeto do MEC que financiava escolas militares nos governos anteriores foi brecado pelo atual ministério da Educação. Mas a batalha se deslocou para os governos estaduais. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas tem privatizado a gestão de escolas públicas por meio de leilão na bolsa de valores, no modelo “Parceiro da Escola”. Em Minas Gerais, 95 escolas públicas foram colocadas à venda na B3 em março de 2026.
“A turma diz que é só gestão. Mas como vamos dissociar gestão de projeto pedagógico? Impossível”, disparou Petta. E concluiu convocando os secundaristas para a disputa eleitoral de outubro. “Temos lado e nosso lado é o lado certo da história. Não temos terceiro caminho e nosso lado é ao lado do presidente Lula.”
Yann: “A UBES precisa aumentar o tom”
Se Petta trouxe a memória da UNE, Yann Evanovick trouxe a memória da própria UBES. Ex-presidente da entidade entre 2009 e 2011, o amazonense de Manaus que começou a militância aos 14 anos hoje ocupa o cargo de Coordenador Geral de Políticas Educacionais para as Juventudes no Ministério da Educação. Sua fala foi uma das mais contundentes da manhã.

Yann abriu lembrando o que mudou desde que o governo Lula reassumiu. “Não existe possibilidade de produzirmos as transformações sem participação efetiva da juventude brasileira e dos estudantes no seu lugar histórico”, afirmou. “Quando chegamos no MEC, uma medida foi tomada: nunca mais vocês vão tocar o Ministério da Educação sem receber um estudante. E o que é pior, no governo anterior às vezes agrediam estudantes.”
A fala de Yann ganhou força quando ele apresentou os dados do desmonte promovido pelo governo Bolsonaro. Políticas de alfabetização foram interrompidas mesmo havendo orçamento. O Projovem, programa de reinserção escolar de jovens que não concluíram o ensino fundamental, foi descontinuado com quase 4 bilhões de reais parados na conta. “Quando um governo descontinua política pública, em tese, é por falta de orçamento. No governo Bolsonaro, eles interromperam tendo orçamento”, denunciou.
Yann fez uma análise que ecoou pela tenda inteira. “Saímos da condição de não só reivindicar, mas também de conquistar. Ninguém quer produzir só luta política e nunca avançar. Isso desmobiliza a luta social. Quando a gente conquista, a gente sabe que a luta é necessária porque produz condições concretas.”
E deixou um recado direto para os congressistas. “A UBES precisa aumentar o tom. A UBES precisa aumentar o Pé-de-Meia, porque para a playboyzada, 200 reais pode não fazer falta, mas esse não é o nosso caso.” Yann lembrou que foi durante sua presidência na UBES que se conquistou a destinação do Fundo Social do Pré-Sal para a educação, semente do que hoje financia programas como o Pé-de-Meia.
Bacelar: “Quando a gente junta juventude com classe trabalhadora, a gente avança”
Deyvid Bacelar, ex-coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e pré-candidato a deputado federal pelo PT da Bahia, fechou a mesa trazendo a perspectiva do movimento sindical. Bacelar liderou a greve petroleira de dezembro de 2025, que paralisou todas as refinarias e 28 plataformas do país, e se desincompatibilizou da FUP na semana passada para disputar as eleições.

“Fico feliz de estar aqui hoje. Saí da Bahia para estar com vocês”, disse Bacelar, que conectou a luta dos petroleiros pela soberania energética à luta dos estudantes pela soberania educacional. “Quando a gente junta a juventude com a classe trabalhadora, a gente avança.”
A presença de Bacelar na mesa não foi acidental. Assim como a Petrobras não pode ser entregue ao mercado, a escola pública não pode ser entregue à lógica militar ou empresarial. Os dois patrimônios pertencem ao povo brasileiro.
O principal do debate
A mesa “Escola não é quartel” foi uma das mais vibrantes do 46º CONUBES. Reuniu um professor que forma consciência crítica pelo YouTube, um veterano que presidiu a maior entidade universitária do país, um ex-presidente da UBES que hoje opera a política pública de dentro do MEC, e um sindicalista que parou refinarias para defender a soberania nacional.
O recado que saiu da Tenda 3 nesta sexta-feira foi claro: escola pública não é quartel, não é empresa e não é mercadoria. É o lugar onde se aprende a pensar, a questionar e a lutar. E os secundaristas do Brasil inteiro, reunidos no ABC Paulista, mostraram que sabem exatamente o que fazer com esse aprendizado.
O 46º Congresso da UBES segue até domingo (19), com plenária deliberativa no sábado e eleição da nova diretoria no domingo. O tema central do encontro é “Democracia e soberania: um Brasil do tamanho da nossa rebeldia.”

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